Pretérito Perfeito: um conto de Natal por Cesar Bravo

Pretérito Perfeito: um conto de Natal por Cesar Bravo

They call us problem child, we spend our lives on trial // We walk an endless mile, we are the youth gone wild /… We stand and we won’t fall, we’re one and one for all // The writing’s on the wall, we are the youth gone wild — SKID ROW

Em Três Rios a vida mudava em um piscar de olhos, em uma rajada de vento, na metade de uma respiração. Assim como acontece em muitas famílias, os Fleury discordavam em quase tudo, mas sabiam que, com a quantidade certa de tempo, o passado podia se tornar bem mais agradável que o presente. Naquele dezembro de noventa e sete não foi diferente, e todos pensavam no ano anterior enquanto as portas começavam a ser trancadas por toda a cidade.

Com o silêncio da cozinha quebrado apenas pelo vai e vem de Silvia indo da geladeira até o fogão, Eriberto, o provedor da casa, aproveitava para ler o jornal. Da sala, algum ruído que mostrava que ainda havia vida nos outros cômodos. Não a vida leve e despreocupada que movimentou o ano anterior, mas ainda assim, a vida.

— Credo em cruz, isso nem parece Natal… — a dona do lar disse e enfiou o chester no forno. Apesar dos pedidos de Eriberto, na mesa já havia comida suficiente para alimentar trinta e cinco famílias. Salada de maionese, farofa, pernil, um galeto que ainda iria ao forno, bacalhau, um exagero do questionável arroz com uva passa que por absoluto desespero por prosperidade se tornou tradição no natal, e o panetone.

O homem cedeu mais um suspiro e virou a folha do jornal.

— Tem que ter paciência, isso vai acabar logo. Meu amigo na polícia falou que já estão na cola do assassino.

— Por acaso seu amigo na polícia é o Cadu Morassai? Porque se for aquele cara, eu duvido muito que ele encontre a própria sombra.

— O delegado pensa diferente. E o Morassai não tá sozinho nessa.

— Ah, não, claro que não. Ele colocou aquele turco pra se perder junto com o japonês.

— Notícias voam, não é mesmo? — Eriberto comentou com certo azedume (a última novidade que ele conseguiu dividir com a esposa foi um risco no Gol).

— Nossa casa não é o centro do universo, Eri. Quem me contou foi a Shirley lá do salão. Eu liguei pra ver se ela tinha uma hora, minhas raízes estão ficando brancas.

— Pelo jeito não conseguiu marcar.

Silvia mudou a repartição do cabelo e desviou a expressão de uva passa para o outro lado. Alguns homens definitivamente merecem a benção da cornitude.

— Ela só vai abrir na semana que vem, tem muita gente que ainda não está saindo de casa.

— Shirley Gonzaga. Outra cidadã que vai precisar de dois caixões quando morrer, o maior só pra língua.

Silvia enxugou as mãos no avental e puxou uma cadeira. Sentou-se ao lado de Eriberto, em frente à guarnição de comida.

— Eu não aguento mais essa situação. Dois meses, Eri. Dois meses segurando a segunda adolescência do meu pai e inventando desculpas para manter os meninos em casa.

— O problema não são os garotos. Por que tá trancando nossos filhos em casa?

— Meu pai se sente um idiota quando vê os dois saindo e não pode fazer o mesmo.

Eriberto manteve o silêncio. Uma medição precisa em seus lábios denunciaria o nascimento de um sorriso, Gervásio se sentindo um idiota era uma coisa boa, claro que era.

— Seu pai é casca-grossa. Ele vai ficar bem. Me preocupo mais com você. De onde vem todo esse nervosismo? É só por causa do seu Gervásio ou tem mais coisa?

Silvia esfregou os braços.

Algumas vezes, o mundo tenta contar seus segredos. Não nos nossos ouvidos, não pelos olhos, mas ele consegue falar por nossa pele. A sensação durou um ou dois segundos, e, nesse curto intervalo de tempo, o arrepio que varreu Silvia foi tão forte que os olhos lacrimejaram. Sem conseguir se controlar, ela esticou o braço e apanhou a mão direita do marido.

— Caramba, Silvia, que mão fria é essa? Caiu a pressão?

— Sabe quando parece que alguma coisa muito ruim passou perto da gente?

Eriberto a encarou e não conseguiu desviar os olhos. Tinha alguma coisa nadando naquele rosto, um vazio abissal, uma catástrofe anunciada.

— Vamos parar de falar besteira, tá certo? Eu vou abrir uma cervejinha pra gente e vamos fazer a festa. Não é tão ruim quanto parece, coração. Nós estamos com saúde, os meninos estão bem, o seu Gervásio ainda não brigou comigo essa noite. Pensando bem, acho que esse Natal vai ser tão bom que nós nunca mais vamos esquecer dele.

Silvia voltou a esfregar os braços. Pelo que conhecia da vida em Três Rios, algumas vezes o esquecimento podia ser uma benção.

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Fonte: DarkSide

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