A Desgraça de Magnólia – Por Marcello Ikka

A Desgraça de Magnólia – Por Marcello Ikka

Olá, pessoal!

Tudo bem?

Dia desses, recebi (através das redes sociais) um trecho do conto ” A Desgraça de Magnólia” do escritor Marcello Ikka. O conto faz parte da antologia criminal “Duologia de Crimes”. Gostei bastante, por isso, decidi disponibilizar (com a devida autorização, claro) aqui no site.  Vale a pena dar uma conferida.

A Desgraça de Magnólia

Passeava pela minha timeline no Facebook, enquanto fermentava uma amargura dentro de mim. Novamente, tinha sido tirada de uma cobertura policial e investigativa. Tudo isso para cobrir os eventos dos metidos a socialites da cidade, que é um ovo. Minha preguiça com a situação atual era o que me fazia deslizar e deslizar a página para baixo sem intenção de parar. O meu olhar não pousava em postagem alguma. Estava hipnotizada pela minha raiva. Ó, Helena, você é tão linda. Isso facilita muito a entrada do nosso jornal nesses eventos. A beleza abre portas. Ah, Helena, você é quase uma modelo. É perfeita para cobrir festas da alta sociedade. A voz do meu editor se tornava nauseante quando eu juntava na cabeça essas várias besteiras que ele sempre me dizia. Vá pro inferno, seu idiota! Eu o xingava em pensamento.

Opa! Parei na foto de mais uma festa de gente rica. Quem estava ali no meio daquelas pessoas? Uau… João Heitor. O meu amor platônico não correspondido do ensino médio. Ele tinha se dado tão bem assim para estar rindo ao lado de tantos endinheirados? Pronto. Ele tinha se dado melhor do que eu. Na verdade, isso não era algo difícil de acontecer. Quem não teria se dado melhor do que uma jornalista que ganha pouco e cobrindo o que não lhe interessa? Sério, aquele momento em que vi o cara, que mais me iludiu na adolescência, eu me segurei para não ter raiva de mim nem das minhas escolhas. Será que deveria ter cursado uma engenharia da vida na também? Vai saber. Neste país tudo pode dar mais errado do que certo, se você não tem berço de ouro. Ah, isso o João Heitor tinha. O que o tornava ainda mais cobiçado por meninas e, até mesmo, em segredo por alguns meninos, como viemos a ficar sabendo mais tarde. Já eu estudava na mesma escola por causa de bolsa por causa de um concurso de redação. O meu gosto pela escrita que me colocou para estudar ao lado de outros poucos bolsistas e centenas de adolescentes ricos. Tudo aquilo, para eu depois de adulta, penar para pagar todos os meus boletos em dia. Helena, para de reclamar, caramba! Eu sempre briguei comigo mesma. Tem sido um jeito de me trazer de volta à lucidez.

Ao voltar dos meus devaneios, mirei na foto que, primeiro, me embarcou nessa viagem toda. Ao analisar a imagem, eu o encontrei do lado de uma mulher. Seria a esposa dele? Eu vi quem estava marcado na foto. João Heitor Viccari, Ana Clara Viccari. Um impulso fervia dentro de mim e pedia para ser respeitado. Ele era o de clicar em seus respectivos nomes e investigar as suas vidas, ver como elas estavam então. Havia anos que eu não via aquele rosto do João. Ele continuava muito bonito. A esposa dele também era linda. Que bosta… Um pouquinho daqueles sentimentos da adolescência de me sentir feia demais para o João começou a pipocar outra vez. Pensei em sair daquela foto para escapar do que brotava de mim. Deitei a minha cabeça no meu travesseiro, me virei de lado em posição fetal e coloquei o notebook aberto diante da minha face. Stalkear ou não stalkear? Essa era a questão. Fechei os olhos e bufei. Helena, cê tá louca, pô? Que dramalhão por nada. Cansei de mim mesma e cliquei no nome de João Heitor Viccari.

Que foto linda do casal eu encontrei como primeira postagem. Mas, por que tantas reações de tristeza? Um frio se espalhou pela minha barriga ao ler o seu texto de despedida e luto sobre a sua esposa na publicação da foto em que os dois estão no alto do Corcovado no Rio. Os dois estavam tão felizes na imagem, mas a legenda que ele escreveu… Sentei-me de novo. Havia uma reação de raiva. Vi o nome esquisito da pessoa. Cliquei para ver quem era. Magnólia Hills. Isso seria um nome de verdade? Entrei no perfil. Como foto de perfil, um gato preto de chapéu violeta com uma fita dourada se fechando num laço sobre a aba. Tudo fechado na linha do tempo, sem informações sobre amigos. Só a postagem de um acontecimento: o nascimento em vinte e dois de abril de mil e quinhentos. Aquele perfil só podia ser um fake. Uma pulga apareceu atrás da minha orelha. Eu tinha que confirmar a possibilidade da minha suspeita. Foi o que o eu fiz. Saí do perfil falso, olhei em outra publicação de declarações a mulher morta que João fazia num texto longo em mais uma foto com ela e com um menino que devia ter por volta dos quatorze anos de idade. Dava pra ver que era um adolescente pelas espinhas e o olhar entediado. Pela legenda, Eric era o filho dele. Nas curtidas, outra única reação de raiva. Ah, que surpresa! Magnólia Hills mais uma vez. Descendo pela página do meu antigo crush, aquele que quebrou o meu coração a dizer que gostava de mim como amiga depois de sairmos do cinema, vi mais reações raivosas de Magnólia Hills nas publicações de João. Outro fato interessante que percebi: só fotos de família traziam esse “grr” nas reações. Pronto. Havia confirmado uma suspeita: de que era alguém que não gostava de João e queria mostrar isso. Então, uma segunda desconfiança se abriu pra mim: será que seria alguém que também não gostava de sua família? Voltei a primeira foto que havia visto. Aquela do Corcovado. Uma compaixão estranha me moveu. Nada de estranha, né, Helena? Cê era apaixonada nesse seu ex-melhor amigo. Ex-melhor amigo. Depois do colegial, ele foi embora da cidade e nunca mais nos falamos. Eu continuei presa aqui. Ele foi pra capital do estado e eu continuei em Santos… Uma cidade do interior com praia. Eu senti muitas saudades dele… Por muito tempo… Reagi à foto com a carinha de choro. Eu deveria comentar também? Só porque ele tá solteiro agora, Helena? Claro que não, respondi a mim mesma. Um afeto permanecia apesar do desafio do tempo. Decidi comentar: “Meus sentimentos, João”. Foi assim que eu o fiz. Logo após enviar o comentário, fiquei entorpecida. Não sabia o que pensar, o que fazer… Passei mais de um minuto encarando aquela foto dele com a mulher até que uma notificação chegou para mim no Messenger. Solicitação de mensagem de Magnólia Hills. Caramba! As coisas estavam a se desenrolar diante dos meus olhos e a confirmar emergentes suspeitas. Havia um comichão, uma inquietação que só cresciam em mim. Droga… Me lembrei de que eu deveria me dedicar àquela coluna social morna, ao qual fui delegada. Quer saber? Que se dane. Aceitei a solicitação da tal Magnólia Hills. O texto com o qual me dei de cara, ao abrir a mensagem daquele perfil perturbador, foi esta pergunta:

— Você trabalha no Diário, né?
Para saber disso, a fulana deve ter fuçado no meu perfil ou já me conhecer de alguma forma. Tudo era possível, pois a pessoa por trás do nome falso e a foto bizarra de gato poderia ser qualquer um. Hesitei um pouco, mas escolhi me jogar de cabeça nessa repentina investigação. Ela era mais saborosa do que escrever sobre o aniversário de casamento de um magnata da cidade.
— Trabalho, sim. Curti o seu nome, Magnólia — enviei.
— Obrigada — ela respondeu. Hmm… Ou ela assumiu, com afinco, a persona feminina ou se trata mesmo de uma mulher. Uma com raiva do João. Sem esperar por uma resposta minha, ela continuou:
— Você deveria investigar o tal de João Heitor.
— Por quê? — Porque eu tenho a suspeita de que ele matou a esposa dele envenenada. Acho que não foi um suicídio.

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Fonte: Marcello Ikka

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